Tabacaria

domingo, 20 de maio de 2018 Nenhum comentário
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
Que ninguém sabe quem é,
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

..."

Álvaro de Campos
15 de Janeiro de 1928


Eutanásia

quinta-feira, 17 de maio de 2018 Nenhum comentário
2.

Diga-me o que queres?
Uma canção das minhas melhores cordas?
O tempo tocou em minha destreza

Agora, não vago sobre os olhos da noite,
acelerada pelos corredores frios, ao encontro do seu riso festivo

Me alimento de conflitos ambulantes
Num canto avesso às minhas costelas,
contra paredes exaustas dos meus rangidos

Tu, não fiques!
Fico só!
Vai!
E não prolongues o meu sofrimento...

Contra a parede

quarta-feira, 16 de maio de 2018 Nenhum comentário
1.

Estes olhos desatentos
Antes sentenciados ao encantamento,
Salivam famintos por um gosto de percepção

O que há para ser visto que valerá o empenho?
Que invalide meu medo?
Qual vulto provocará contentamento?

Enquanto vagarosamente hospeda-se a penumbra,
sem hesito,
cada pedaço seu confisca todo meu deleite.


Se minha casa falasse Ed.1 - Como montar/reformar um banheiro (muito pequeno)

domingo, 6 de maio de 2018 2 comentários

Num tempo distante, aqui ousei inventar uma 'série' de assessoria arquitetônica, tais podem ser encontradas nos links seguintes: ideias para sala de estar de Ju e Léo e home office compacto e algumas idéias para montar o seu.
Funcionou por tempo determinado, embora não fosse o intento.
Decerto, morrerei dizendo que arquitetura não é exclusividade. Até 2015, a porcentagem populacional que nunca contratou qualquer atividade de arquitetura, era de 93%.
Mas, gloriosamente, confio na indispensável função: a social, que está sendo banalizada e usurpada pelo capitalismo selvagem.

Volto com o intento de produzir conteúdos a nível de assessoria (propostas aleatórias) e não de execução. Se houver alguma dúvida, sinta-se em liberdade para me escrever - urbanocubo@gmail.com.

No primeiro momento, apresento um banheiro aleatório com dimensões quase minimas, gostosinho e com propostas práticas.

Conhecendo a planta



O modelo que escolhi possui quase as dimensões minimas necessárias, totalizando 3,75 m² de área. O box conta com 1,50 m x 0,90 m (1,35 m²), sendo o restante para o lavabo e sanitário.


O único elemento não universal dentro do box, é o nicho de apoio na parede. É simples e pode ser feito em qualquer parede, exceto se houver instalações elétrica ou hidráulica e se for estrutural.
Às casas já prontas, pode ser feito um recorte na parede com uma serra de mármore/cerâmica ou ainda, com a serra copo, porém a segunda opção não deixará o recorte com acabamento liso, sendo necessário a aplicação de moldura de mármore, pvc, etc.
Se o banheiro já estiver pronto, é importante lembrar que a profundidade do nicho não deve ultrapassar 0,10 m - com o acabamento, ficará com aproximadamente 0,08 m, dependendo do material -, caso contrário a parede poderá perder resistência.
Se preferir, pode ser feito com a mesma largura da janela.


clique e vá para a loja :)
Clique nessa imagem para acessar a loja

A prateleira sobre a bacia sanitária é a que está acima descrita. No projeto, uma das prateleiras internas não foi montada para caber objetos mais altos, como hidratantes, shampoos, etc.


 clique e aprenda fazer :)
Clique nessa imagem para acessar o "como fazer"


O espelho proporciona amplitude, sensação de maior horizontalidade em ambiente pequeno.


Considerando a circulação justa e a necessidade da abertura da porta (conferir na planta), sugiro que o nicho/armário não possua portas e/ou gavetas.



Como fazer parede de cimento queimado:


A proposta apresentada não é para que você faça réplica, tampouco só existe essa solução para banheiros pequenos. A intenção é que saiba que é possível que esse comodo indispensável pode oferecer aconchego/vontade de permanecer e funcionalidade.

Me conte sua perspectiva!?
Veremos mais um episódio desse, na próxima quinzena 😊

_
Notinhas:
1. Declaro que não farei nenhum serviço que isente a busca pelo profissional de arquitetura. Para reforma e/ou construção, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo exige Registro de Responsabilidade Técnica junto ao conselho, tornando a atividade legal;
2. Esse ante-projeto (estudo) foi todo elaborado por mim, com suporte dos softwares SketchUp e V-ray;
3. As imagens não estão com a melhor qualidade e realistas. Ainda estou me familiarizando com o querido renderizador;
4. Loja e blog/site indicados não possuem nenhuma parceria com o Cubo.

"Soneto LXXXVIII"

terça-feira, 1 de maio de 2018 Nenhum comentário
"Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto."

William Shakespeare

"Estou escrevendo essa carta, meio aos prantos..."

quarta-feira, 25 de abril de 2018 2 comentários

Música "A carta", composição: Claudio Matta / Alvaro Socci

Acima, apresento a mais tolerável das gravações (se está lendo no celular, avance para o minuto 3:16, mas as duas primeiras músicas valem seu tempo), porém não menos virulenta. Digo que na voz de outros, por exemplo, Eduardo Costa, é mais irritante, mas acredito que essa é minha posição enquanto individuo. Tratando-se do sujeito, em todas as vozes é igualmente problemática.

O intento não é vigiar e punir o sertanejo - aqui não se marginaliza mais, gênero algum.

Recentemente concluí as duas temporadas de "Doctor Foster", pertencente à BBC, disponível na Netflix.
Em busca de resenhas, ao que parece, todos que a assistiram, aplaudem Bartlett pelo drama. Mike Bartlett, o criador, se diverte fazendo de Gemma (Suranne Jones), uma mulher com um estado psicológico perturbado e programado à destruição das faces do marido Simon, após desconfiar de uma possível traição.

Gemma e Simon, ao fundo / via: Cine Pop 

Nos fatos seguintes, Gemma se dedica inteiramente ao processo investigativo, ficando ineficiente no trabalho e reduzindo a quase nada de sua atenção dedicada ao filho Tom, 12 anos.

Contudo, Gemma se propõe perdoar Simon se ele for leal e revelar a infidelidade.

É notável a justificativa universal: "Devemos ficar juntos, pelos nossos filhos". Mas, a atribuição da responsabilidade majoritária numa família com filhotes, é para o sujeito materno. O número de mães sem cônjuges têm crescido e esse é o fato qual comprova que a natalidade não fortalece as relações - entre os pais. Quem assim faz, neste intento, é procriador egoísta.

Gemma ainda ouve de Tom que, se o papai buscou uma relação extraconjugal, é por não ter recebido a atenção necessária da mamãe.

Infelizmente, existem inúmeras Gemma's.
Não é natural perdoar sem implodir as consequências. Se fossemos analisar este tal perdão, talvez descobríssemos que de fato, não é perdão. O perdão está banalizado.

Sucessivamente, Simon atribui a culpa à Gemma pela não regeneração da família: "Podemos esquecer tudo e vivermos como nada houvesse nos fragmentado!"

Bartlett, cria uma personagem à beira da loucura: porque essa é a visão masculina calculada sobre a traída, como quem diz que as mulheres não são estáveis o suficiente para sobreviver ao indesejável.

Quando numa relação afetiva, dois indivíduos consentem em absolutamente tudo, um dos dois está com dificuldade de 'ser individuo'. É necessário buscar ajuda.

"E por isso decidi
Que eu vou ficar com ela
(...)
Ao enxugar minhas lágrimas com beijos
Revelou que já sabia
Mas iria perdoar"

Temo a bondade de muitas mulheres. Estão se alimentando de sobras. Sobras estrategistas e hegemônicas, em nome do amor.

Violência moral e psicológica é agressão.

"Se você manter silêncio sobre as suas dores, eles vão te matar e dizer que você gostou."
(Zora Neale Hurston)
_
Leia:
🚩 "Perdão é reconquista"
🚩"A lealdade é um dos sentimentos mais puros"

Tour auto-guiado

domingo, 22 de abril de 2018 Nenhum comentário
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (José Saramago)

Alguns olhos vêem os rostos alheios por capricho ou descapricho - os que gostam de elencar o que não lhes atraí  -, outros como apreciam e investigam a história. Atentos aos detalhes.

Meus olhos. Muito amigos dos espelhos que escorrem pelas paredes de casa ou dos que se atiram em minhas mãos e se entrelaçam em meus dedos tortos e compridos.

Meus dedos. Pela manhã trabalham como quem desejam impressionar - para não perder o emprego. Ajeitam meu cabelo como gosto, lavam e hidratam o meu rosto... Por fim, desenham sobre minha pele um par de sobrancelhas.

Um par de sobrancelhas. Meus dedos são criminalmente responsáveis por reproduzirem inúmeros falsos históricos. Desenham o que nunca houve aqui. Não há fidelidade ao real em tuas representações artísticas. Pinceladas com tinta marrom mais escura que minha pele, aplicadas sem precisão ou simetria.

Minha pele, um campo minado. Pequenas depressões a se perderem de conta: espinhas e seus vestígios e verruguinhas insensatas.

Tudo que fiz para ser, de fato não me fizeram, se ao fim do dia, nua, resta[va] só eu em mim. O que não deixei de fazer para ser? Decerto era o meu mais preocupante dos problemas. 

É, ando à mercê dos descaprichos. Mas, mais do que coragem, é preciso sentir amor. Não há coragem  [de lutar] que se sustente, se não houver amor pela causa.

Tão errantes quão distantes

sábado, 14 de abril de 2018 Nenhum comentário
Não me chame por anjo, sou mulher. Revogo o codinome! Por onde andas a me buscar, não encontrarás.

vítima

quinta-feira, 12 de abril de 2018 Nenhum comentário
ora,  não sinta! não sinta responsabilidade pela frustração alheia, oriunda de uma expectativa nunca jurada pela sua boca. 
não sinta nada além do que realmente precisa sentir: seus sentimentos, intrínsecos e que não devem explicações à outro indivíduo.

não há julgo meu sobre sua cabeça. não há preço à ser pago para habituar meu eu. não sou recruta-refém.
pelos seus antecedentes, me basta sua tranquilidade; pelo presente, me basta sua paz.
não, não sinta por mim nada do que - ainda - não sente por ti.

Se tens bons ouvidos...

quarta-feira, 11 de abril de 2018 Nenhum comentário
Do amor que eu não disse
Se ainda não disse,
não é porque não há
tampouco, 
posso enclausurá-lo na literatura
Que tão vasta se faz pequena

Do amor que eu não disse,
Dos tempos que parecem perdidos,
engolidos pela ausência de minha fala
São tais tempos, quais ando encontrando com o adocicado da vida

Quando aproximares ao meu peito,
escute meu coração,
É minha voz
[que pensas que não digo].

 
Desenvolvido por Michelly Melo.