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Eu, vitimismo: Capítulo VI - Qual é a cor da solidão?

segunda-feira, 4 de setembro de 2017


Às vezes parece que sou exagerada, que faço tempestade com um copinho d'água. Quem dera ter esse privilégio.

Me protejo com todos os escudos que me são possíveis, principalmente dos males que tentam brotar aqui dentro. E conseguem.
Cada gesto seu, é analisado. Até as coisas quase inalcançáveis aos sentidos, faço questão de sentir. Nada que me faça é irrelevante.

As pessoas sentem necessidade de questionar, quando é que vou ter um parceiro, e elas não fazem por maldade, é cultural. Essa pergunta, um dia se responderá. Tudo no meu melhor tempo.

Me abster do que não me transborda é Lei, para viver bem. Quando sinto que sou útil só quando convém, fujo para a outra ponta. E isso acontece quase sempre. Minha sensibilidade é do tamanho do mundo.
Não sou covarde por fugir, sou guerreira por me proteger sozinha. Preciso ser. Haja pernas para correr quase todos os dias.

Queria poder temer o escuro, contar com outra coragem. Sou eu por mim. Ninguém mais me abriga melhor que eu.

Se não pretende acrescentar, não ouse cativar. Expectativas quando depositadas em lugar errado, são tóxicas (mas agora já sei que o problema não sou eu). Cansei de perdoar! O transtorno consequente, é só meu.

Esse breve texto é lírico. É o relato da vida de outras milhares de mulheres pretas. Peterimento violento. Não sinto vergonha em dizer, menos ainda, desejo que tu sinta compaixão. Escrevo isso, para dizer que não somos vitimistas: a solidão da mulher preta é real, é cultural. Infelizmente. Existe ainda, as que a sofrem mesmo estando num relacionamento. É surreal. Mulher preta não é para casar, segundo o ideal social (basta dar uma gogleada), não tem problema vacilar com ela, é só um rascunho. E sangrando sem corte, questiono: quanto valem os nossos corações? (Gostaria de ter produzido um texto a altura de quem acompanha o blog, mas no momento não é possível. Existem artigos incríveis e completos pela internet, não deixe de pesquisar)

Eu, vitimismo: Capítulo I - Relacionamento afrocentrado, solidão preta e palmitagem...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Tais Araujo e Lazáro Ramos 💛

"Relações afrocentradas são aquelas que envolvem escolha de e entre parceiros negros, podendo ser de diferentes gêneros e orientações sexuais." (Stephanie Ribeiro)


Confesso que não tenho intimidade alguma com o assunto, pois nunca me envolvi numa relação amorosa. Pesquisei e li alguns artigos antes de vir escrever, como sempre faço. Confesso ainda, que tenho receio de falar disso.
A ideia desse texto ressurgiu pós a leitura de um texto de uma amiga de rede social, onde a mesma dizia que não se submeteria mais, a um relacionamento afrocentrado e que ainda, admitiu estar bastante feliz com o relacionamento interracial (entre indivíduos com etnias distintas).

Para alguns pretos (e ironicamente, para alguns brancos que gostam de ditar o que racismo ou não), o amor afrocentrado é referencial e o ideal a ser alcançado, é a meta vital de relacionamento. Pensam ainda, que todos os pretos deveriam pensar assim. Pensar que esse amor é o ideal, não está errado, mas a análise da experiência é de grande valia.

A mulher preta na sociedade, é vitima do racismo, machismo/misoginia e não são contempladas em grande parte dos movimentos feministas (feminismo da branquitude pseudo good vibes). Por este e outros motivos, o pensamento de que o melhor a fazer para não sofrer tanto, é relacionar-se com outro preto.

Não digo em todos os casos, pois existem casais aparentemente felizes e que nunca relataram abuso de nenhuma das partes, o que é bom. Mas existem casos, onde o relacionamento afrocentrado não é como o conto de fadas do mundo preto, um exemplo marcante foram as agressões que a cantora Rihanna sofrera pelo cantor Chris Brown. Aos olhos externos, tudo era lindo e prospero e ainda houve os que torceram para que os mesmos reatassem a união. Não se pode torcer por algo que é não-saudável ao próximo, machismo é grave e deve-se parar de romantizá-lo.
Rihanna não é a única, e não é só a agressão física que machuca. Tive a oportunidade de ouvir (ainda que virtualmente) diversas mulheres pretas que tiveram um relacionamento abusivo, disfarçado de mar de rosas. 

Falo de homem preto que sente-se inferior ao namorar uma preta enquanto que que o melhor amigo namora uma mulher kit: sonho de consumo (vulgo, branca). Falo de homem preto que pensa que a mulher não necessita de tanta atenção quanto a branca, uma vez que a preta é tratada como sinônimo de força e resistência (quem foi que disse que mulher preta é tão forte? que não tem momento de fraqueza? que é durona e por isso não necessita de apoio?), isso vem da herança escravista, e por assim pensar, termina por deixar a parceira sofrer a solidão afetiva, onde se vê sozinha, lutando para a prosperidade da relação. Falo de homem preto que exalta a beleza branca feminina e diminui ou nega a feminilidade preta. Falo de homem preto que exalta a beleza preta, mas não compromete-se ao relacionamento sério com uma preta e valoriza e pretere envolvimento com a branca: essa é a famosa palmitagem (bonita, mas não para mim). Palmiteiros, tem aos montes por aí (inclusive, ícones midiáticos 'militantes'). Falo de homem preto que só reconhece a mulher preta como amiga, antes mesmo de ter a oportunidade de conhecê-la. Homem preto, que sente-se à altura da sociedade somente ao lado da kit: sonho de consumo

A relação afrocentrada, não é sinonimo de romantismo desde o período colonizador escravista. Uma vez que a mulher preta foi (e é) inferiorizada de todas as formas possíveis, sendo que alguns dos rótulos mais marcantes foram (e são): objeto de satisfação sexual e instrumento para realizar atividades serviçais (e que homem quer estar ao lado de uma mulher dessa?). Então, estar ao lado de uma parceira branca, para o homem preto é um ato de se sentir "tão bom quanto ao homem branco" (eu odeio ter que dizer isso, você não sabe o quanto!).

Diante as todos esses e outros fatos, em algum momento da vida, a mulher preta chega a pensar que está fazendo algo de errado e de que ela é o problema. Eu já pensei e ainda penso isto em alguns momentos, embora esteja em processo de desconstrução e auto-reconhecimento. E por mais indiferente que pareça, quando ouço algum elogio sincero, infelizmente custo a acreditar. Foram tantos anos de desqualificação agressiva da imagem preta feminina que dificulta ter acesso à confiança.

Não pense que estou declarando a mulher branca como inimiga (fosse assim eu seria uma pseudo feminista, e não sou, embora não confie na tal sororidade entre pretas e brancas), até porque, homem não é brinde para que trave-se uma competição ao seu favor. Aliás, mulheres não deveriam competir entre si, por motivo algum.

A mulher preta deveria poder gozar de uma vida plena e poder fazer escolhas que lhe são saudáveis. A solidão afetiva da mulher preta é real e presente. E se alguém se relacionar com uma mulher preta, mas ocultar e evitar o debate sobre racismo e machismo, não vale. Não é uma relação saudável. Ocultar o fato não o faz desaparecer, o espinho ainda continuará lá, furando em tudo que é parte, incomodando.

Não é todo relacionamento preto que terá o final feliz. O assunto é amplo a complexo e penso que ainda deve continuar sendo estudado e debatido (por vozes que tenham dignidade e domínio de fala ao assunto).

Enfim, relacionar-se com uma/um preta/o é ato de resistência, pois passa a conviver com o racismo sistematicamente estrutural e o processo de apagamento da identidade preta. É necessário que saiba resistir e denunciar. É necessário ainda que haja respeito entre as partes quanto as diferenças culturais (mas isto, independente da relação).

Foi tirado o direito de amar entre nós negros. Foi tirado o direito de nos amar entre negros. Isso acontece a partir do momento que era mais importante sobreviver na sociedade escravista do que ser.  (Stephanie Ribeiro)

Relacionamento é saudável quando é construtivo. E por isto, muitos preferem a real solidão. 
Diante de tudo que foi dito, é bom saber que ainda existem relações afrocentrandas que são grandiosas e só tendem a acrescentar...


Música reflexiva pós leitura: 
A intenção de deixar a música e sugeri-la como 'trilha sonora' é exatamente para reforçar e de algum modo 'provar', o quão o homem preto está focado e objetivado a alcançar um relacionamento interracial. Abaixo, breve analise: 
  •  "sou negão e a patricinha é loira de olho azul" =  desnecessária a comparação. sendo assim, entendo que a intenção era realmente grifar e exaltar o tipo de relação e o tipo da parceira;
  •  "as nega do ziriguidum já quer implicar com ela" = reforçando a imagem social impressa, da mulher preta: barraqueira. e qual é a graça em 'diminui-la intelectualmente', uma vez que ele também é preto? a luta não é a mesma? não, a mulher preta sofre racismo e machismo/misoginia, violências múltiplas com efeitos horríveis inclusive dentro do próprio circulo de convivência;
  •  "terminou com o playboy que é la do bairro dela" = como eu tentei dizer no texto, eles adoram se comparar com o cara N, ficar por baixo? nem pensar.

**O objetivo deste texto não é inferiorizar a relação afetiva afrocentrada e enaltecer a relação afetiva interracial. O relacionamento ideal  não deveria, mas tristemente, (para a sociedade) o amor tem etnia, classe e gênero. Que a sede por revolução e a resistência, nunca ausente de nossos dias. Desejo que sobre todas as coisas, o amor e a empatia prevaleça.

✅ #dosesvitimistas