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Transição

terça-feira, 22 de maio de 2018 Nenhum comentário
1.

Tu, despejo
Em vão convida-me à assistir a própria glória
Quando me viste cear com o inimigo?

(Desassossegada me prendeu à frente
Rasgando o ventre,
desabrochou tórrido e rosado)

Tu, desgosto
Tornaste meu broto álgido e pálido.

Tabacaria

domingo, 20 de maio de 2018 Nenhum comentário
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
Que ninguém sabe quem é,
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

..."

Álvaro de Campos
15 de Janeiro de 1928


Eutanásia

quinta-feira, 17 de maio de 2018 Nenhum comentário
2.

Diga-me o que queres?
Uma canção das minhas melhores cordas?
O tempo tocou em minha destreza

Agora, não vago sobre os olhos da noite,
acelerada pelos corredores frios, ao encontro do seu riso festivo

Me alimento de conflitos ambulantes
Num canto avesso às minhas costelas,
contra paredes exaustas dos meus rangidos

Tu, não fiques!
Fico só!
Vai!
E não prolongues o meu sofrimento...

Contra a parede

quarta-feira, 16 de maio de 2018 Nenhum comentário
1.

Estes olhos desatentos
Antes sentenciados ao encantamento,
Salivam famintos por um gosto de percepção

O que há para ser visto que valerá o empenho?
Que invalide meu medo?
Qual vulto provocará contentamento?

Enquanto vagarosamente hospeda-se a penumbra,
sem hesito,
cada pedaço seu confisca todo meu deleite.


"Soneto LXXXVIII"

terça-feira, 1 de maio de 2018 Nenhum comentário
"Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto."

William Shakespeare

Devora-verbos

sábado, 10 de março de 2018 Nenhum comentário
Eu quero ouvir
o que me devora os olhos
Quero que me sacie
pelas vezes ensaiadas, engolidas
Quero que me declame
os versos, as vísceras, [a]os gritos
Quero o doce e o amargo,
seus equívocos
Quero tudo dentro ou nada.

Devaneios quixotescos

terça-feira, 6 de março de 2018 Nenhum comentário
2.

Pela manhã, no céu da boca há garoa sabor de sangue

Há vestígios de batalha:
músculos enrijecidos,
ossos entrelaçados

Todas minhas pontas, aparadas
Vaidades que valem a destruição,
"que a terra um dia haveria de comer."


O mundo termina todas as noites

segunda-feira, 5 de março de 2018 Nenhum comentário
1.

Em meu leito,
um corpo frio e imóvel,
que outrora estivera sob meu domínio

Dentes contra dentes,
Ranger de pulmões

Ao anoitecer, meu canto é involuntário,
protagonizam os ruídos que disputam soberania em minhas terras desocupadas.

monumental

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
das ondas dos pelos à borbulha do sangue

em nome do tempo,
ao seu corpo,
não há poder para eventos destrutivos

és arquitetura viva,

que em meio aos descasos,
foste escolhido a dedos cansados de bater em pontas de pedras mortas
que em meio as ruínas,
recebeste restauro.

Sucessão

domingo, 25 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
Suas lembranças,
tão somente,
serão minha herança em terra.

Como deve ser

domingo, 11 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
Não sou de lamber os lábios
e de mim não se extraí néctar
Minha dança é desencanto,
destoa e desecontra o compasso
Minhas pétalas se murcham ao menor toque de ponta de dedo

Tu, como deverias
desde outros carnavais
Tão livre quanto o choro derramado,
mais alto que o canto em conjunto
e desalinhado como a queda dos confetes.

ANIQUI-LAMENTO

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
Exaltavas indigna minha frieza
desprezando todos os momentos que ofertei meu corpo quente

Coagida, degelei

Sua retenção bebeu cada gota de água doce da minha liberdade
e tudo o que com dificuldade solidifiquei

Tu me fez vale seco!
Tu me fez vale seco!

EM PEDAÇOS RECOMEÇO

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
2.

Se o luto revogar a luta

Recorrerei cada peça que deixei que levassem
e as amontoerei como cereais
ainda que esfarelados

Tua sede de justiça
vale meu sangue servido em taça
Teu amor por minhas causas perdidas
vale a minha reencarnação.

AOS PEDAÇOS ME DESPEÇO

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018 2 comentários
1.

Me roubaram
o sonho,
o entusiasmo
e o nome intransferível

Me cortaram as asas no percurso do voo
e o céu despencou em chuva de choro

Minha língua expele amargura
Não há beijo com paladar que me beije,
não há carinho mais marcante que as pedras sobre minha cabeça,
não há corpo macio que meus ossos repousem

Minha salvação não vale meus amores
e as injustiças não merecem minha salvação

Me tiraram o direito da morte,
pois em meu nome não há terra para que me cubram

O que podia ser salvo
fracionei entre os pedintes
E o restante de meu tempo
meu sangue
e minha carne,
apodrecem de dentro pra fora
e até o odor se abstém de mim

Ceifaram tudo,
meu descanso em paz

Há tempo que o luto tem a chave de casa
e ensaia a cerimônia triunfal.

"Quando o amor vacila"

domingo, 4 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
"Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defendo,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila."

Desequilíbrio

sábado, 3 de fevereiro de 2018 Nenhum comentário
Garante-me a sobriedade,
quando grafo com letras maiúsculas
bebo um copo de água quente
ou uma xícara de café frio.
Esta, confisca-me o privilégio de não temer
e não sentir dores
Comprova-me
tão somente,
a toxicidade de uma lucidez desvairada e possessiva.

pretérito imperfeito

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018 2 comentários
a quarenta anos mais
se lamentares arrependimentos
direi que até quando pecasse
fosse por amor.

diminuto

terça-feira, 9 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
se espremida, meia gota
palavra incompleta
edição pocket 
na entrelinha
dentro do ponto final 
entre um respiro e outro... 
quilos, metros, espraiados pela metrópole
cortando o céu cinzento num viés invisível
dissipando no sopro do carbônico
onde as nuvens são de lágrimas
o fim, desejado
a lástima, poupada
e a despedida, imprecisa.
outra partícula que parte
ao dormir com a Lua,
o Sol acordará desacompanhado.


nenhum canto será tão sofrido

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
ao ler meus versos imaculados
teus olhos não esperarão pelo sono
e o choro será por alegria
tudo que não foi dito
caberá
chorará só, o sabiá
pois os versos imaculados,
lhe roubará a companhia no mundo que nos coube viver
renunciarei a hora que me atiraria teu sorriso mais bonito
que guarde, à quem terá a coragem de dizer tudo que caberá nos versos imaculados,
olhando ao fundo, nos olhos
dilatando o peito.

pérolas aos porcos

sábado, 6 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
a compaixão de meu âmago, 
é sentida pelos que destinam energia ao ódio.

a demanda da aversão, 
desgosto e rancor, 
inimizade e repulsa...
insaciável!

o que resta à afeição? 
lamentável destilação.

alma velha tem seus êxitos:
a premissa de que pérolas não se lança aos porcos.
 
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