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Negros que lutaram com o exército do RS receberam a morte como recompensa

quinta-feira, 20 de setembro de 2018 Nenhum comentário
"Uma das guerras mais importantes do país, a Revolução Farroupilha também foi palco de uma das histórias mais controversas, desleais e intragáveis da sociedade brasileira. Negros que lutaram com o exército do RS receberam a morte como recompensa no Massacre de Porongos"

via @Savagefiction

"Tudo começa na famosa Guerra de Farrapos, que colocou do lado o império contra os proprietários de terras escravagistas. Na época o Brasil era dividido em províncias e o RS era a província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os farrapos queriam independência.

Os insurgentes gaúchos, proprietários rurais reivindicavam um tratamento mais privilegiado como a diminuição dos impostos, porém a província tem um amplo histórico de divisões ideológicas com o Governo Regente - por várias vezes tentaram instaurar um governo próprio.

Quando a revolução tomou caráter separatista, foi proclamada a República Rio-Grandense em 1835. Eram muitas frentes de batalhas, enquanto algumas tentavam destituir o presidente provincial em Porto Alegre, outras confrontavam o exército do império.

Com uma nova república as regras poderiam ser diferentes, inclusive as leis de escravidão. Mas se engana quem acredita que os Rio-grandenses eram abolicionistas visionários da liberdade para todos. A guerra que durava anos necessitava de recursos bélicos, principalmente soldados.

A princípio os negros mantiveram seus trabalhos escravos, mas logo foram convidados para a luta pela nova república sob a promessa de receberem a liberdade . Morrer no campo de batalha era melhor do que no tronco com grilhões, muitos agarraram a chance com fervor.

Dois corpos militares foram criados, com mais de 400 homens que vinham inicialmente de onde hoje residem os municípios de Canguçu, Piratini, Pedro Osório, Arroio Grande e outros. A grande maioria dos negros não eram libertos pelos farrapos, estes no máximo vendiam para a guerra.

Então quando atacavam uma fazenda inimiga, eles ofereciam a carta de alforria para que fizessem parte do exército. Os negros nunca tiveram os mesmos ideais da República Rio-Grandense, estavam ali pela sua sobrevivência e a esperança de liberdade.

Apesar disso, lutavam com ferocidade. Criaram  bastante temor nos militares do Império. “Nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo…” - Giusebbe Garibaldi em biografia escrita por Alexandre Dumas.

Participaram de batalhas importantes como a do Batalha do Seival, quando os revoltosos gaúchos enfrentaram as tropas imperiais para derrubar o presidente da província - o equivalente ao governador nos dias de hoje. Cada vitória era um combate pela liberdade dos seus irmãos negros

O conflito entre as duas repúblicas era danoso para ambos, na verdade o Império nem reconhecia aquela província como república. Então tentou finalizar o conflito (de 10 anos) de forma diplomática, até prometendo ressarcir os gastos com o conflito de alguns proprietário.

O tratado de paz começou a se consolidar entre o império e a república Rio-Grandense, mas um grande impasse surgiu: o que fazer com os lanceiros negros que lutaram por uma década ao lado dos farrapos? O Brasil não iria alforriar negros com treinamento militar.

Alguns farroupilhas entregaram os negros de volta a escravidão outros resistiram temendo uma rebelião pela traição que estavam cometendo. O responsável pela aproximação e tratado com os Farrapos era Luiz Alves de Lima e Silva, mais conhecido Duque de Caxias.

Em  1844, Duque de Caxias, com general farroupilha David Canabarro chegaram a uma solução para o conflito. Canabarro ordenou que os Lanceiros negros montassem acampamento, desarmados, no local conhecido como Arroio Porongos, atualmente chamado de Pinheiro Machado.

Na época os acampamentos eram segregados, os farroupilhas estavam em outro local e nem parecia haver problemas já que um tratado de paz estava para se concretizar. Mas na madrugada do dia 14 de Novembro daquele ano os lanceiros negros foram atacados pelo exército imperial.

Os Lanceiros assassinados foram de 600 a 700, como vocês sabem Duque de Caxias se tornou o patrono do exército Brasileiro. Relembrar essa história é honrar os verdadeiros heróis da liberdade."



Texto de Ale Santos, disponível em @Savagefiction
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Notas: a) Todo 20 de Setembro, ainda é celebrado o dia do gaúcho. Existe no ato, intenção dolosa, pois eles nunca venceram a batalha contra o império.
Outro fato, é que aqueles que derramaram seus sangues a espera da liberdade, permanecem na insignificância, ano após ano, caminhando para a perpetuidade.
b) Grata sou, ao querido Dani de Lucca, por todo conhecimento e colaboração com indicações.

Como extinguir estupradores?

segunda-feira, 27 de agosto de 2018 Nenhum comentário
Tortura, é a imposição de força de um indivíduo sobre o outro; a dominação para fins de "crueldade, intimidação ou punição", tendo como consequência o dano físico ou psicológico, a destruição da individualidade. Isso é o estupro.

Supremacia de gênero, é a ideologia conservadora de que existe diferença de importância entre os gêneros ou que um é mais legítimo que os outros. Em questão, o masculino é universalmente superiorizado e os que sustentam isso, sentem repulsão por todos os outros gêneros. O estupro tenta afirmar isso.

Objetificação, é o ato de tratar outro individuo como descartável, considerando que o mesmo não tem caráter de unicidade e que não é senciente. O descartável é o que "se deita fora após uma ou mais utilizações, objeto facilmente substituível". É essa a perspectiva do estuprador para com a vitima.

Estas são apenas três das violações.

Para qualquer sujeito capaz de pensamentos coesos, sem mais é possível perceber que estas e outras não são reproduzidas pelo órgão sexual masculino. São exercidas e reproduzidas por seres humanos concebidos com o órgão sexual masculino.

A inibição do impulso sexual em forma química ou cirúrgica é "corrida perdida antes mesmo da largada". A diminuição do desejo sexual ou da possibilidade de ereção não faz com que o individuo perca o interesse em violentar, visto que existem outros instrumentos passiveis de violar a vitima tanto quanto o falo. O fato é que o ato não será impedido de ser cometido. Os meios não altera o fim.

O próprio autor da PL 5398-2013 é um estuprador em potencial/recluso (que pensa que relação sexual forçada, o estupro, é método corretivo para algo que acredita ser verdade única) e vive a insultar e violar - com palavras, até então - a população feminina. Haja visto seus pensamentos expostos, tal como "Só não te estupro porque você não merece".

Pode um individuo exercer a defesa e a acusação de uma única parte, simultaneamente?

Considerando a laicidade, não seria bom que incluíssemos na analise a fé que Jair Messias diz professar. Mas, no minimo, com tamanha hipocrisia perfaçamos que este é um discípulo adepto a traição.
O que diz "Michelle, enquanto não faltar água no mar, não deixarei de te amar" para a esposa, também diz "...Foram quatros homens. Aí, no quinto eu dei uma fraquejada e veio mulher". [O Pai fraquejou? A Tua imagem e semelhança, podemos descartar?]

Pode um individuo exercer a defesa e a acusação de uma única parte, simultaneamente?

A castração não é o gume que corta os pés do mal para que deixe de caminhar. O projeto é tanto incoerente que propõem voluntariedade do transgressor: considerando a fragilidade da nossa construção social de masculinidade, só consigo pensar em "o voluntário involuntário".
As medidas correcionais devem funcionar segundo a sociedade qual será aplicada, e não apropriar-se de leis estrangeiras considerando que estas são onipresentemente eficaz.

Deve-se pensar em anticonceptivos e não em "pilulas do dia seguinte". Mas para tal, é necessário que isto seja feito a partir da perspectiva do sujeito vitima, ou seja, mulheres precisam ser eleitas, para pensarem políticas feministas - que também tenha como objetivo a proteção integral da criança e do adolescente.

Não se pensa solução sem antes pensar prevenção. Deve-se viabilizar mecanismos que invistam em educação progressivamente efetiva, pois enquanto for precária ou nula, terão que continuar alimentando os sistemas de repressão e punição, os quais dissecam e consomem "corpos vazios e sem ética".
Educação de qualidade, não significa que pessoas violentas deixarão de agir, mas reduzirá a propensão para corrupção ao ensinarmos às nossas crianças como serem íntegras e mais próximas da irrepreensibilidade social.

E nós, individualmente perceptores de sentidos e socialmente lúcidos, cuidemos de nossa estabilidade psicológica - o que tem sido luta íngreme - para que juntos e com firmeza, não deixemos sucumbir a consciência social em nome da justiça [revolucionária].

 esta soy yo!Eli Belizário
Pitaqueira em assuntos importantes e/ou legais 😊

Afro cristãos brasileiros sofrem amnésia histórica?

domingo, 12 de agosto de 2018 2 comentários
CATOLICISMO E EVANGELIZAÇÃO
No inicio dos últimos cinco seculos, houveram projetos de evangelização, sob olhos colonizadores. O Império concedia poder para a Igreja, que por sua vez tinha poder influenciador na vida politica do país.
A posição da Igreja em relação aos escravizados era de consenso com a opressão, pois não os acolhiam, uma vez que vigorava uma união exploradora com colonizadores.
As propostas evangelizadoras não tinham como interesse a emancipação dos escravos. Os negros não eram aceitos e não lhes eram assegurados o direito de exercer a fé em sua própria religião: assistiam "do lado de fora" ou praticavam sincretismo.
(Mas antes mesmo de grande parte da Europa, o cristianismo se difundiu na Etiópia (no Império de Axum), conclui-se que, posteriormente, os negros não se apropriaram da fé do opressor).

A INSTALAÇÃO DO PROTESTANTISMO NO PAÍS E SUA [NÃO]PREOCUPAÇÃO COM A ESCRAVIDÃO
No século XIX, uma nova vertente do cristianismo, a Igreja Reformada se instala definitivamente no Brasil. 

No inicio não foi tarefa fácil, sofreu rejeição, expulsão, perseguição e conflitos de interesses constantes entre católicos e protestantes.

O Protestantismo chega com a proposta de renascimento, inclusão e [re-]humanização, também aos imigrantes: um Deus que não abraça tão somente a burguesia capitalista. Seria esse o inicio do progresso, do reconhecimento e da atribuição de dignidade humana aos oprimidos? O inicio da emancipacão?

Os missionários em sua maioria eram norte-americanos. Seus principais ideais eram a separação entre a Igreja e o Estado; promover a educação, a democracia e a liberdade de pensamento. Se identificavam como Liberalistas.
Porém, além de instruírem os novos convertidos a libertarem seu súditos, não concretizaram ações que de fato mudaram a ordem social estabelecida. Outros agentes missionários ainda, usaram de mão-de-obra escrava para se instalarem no sudeste brasileiro.

A grosso modo, só concordaram e assumiram posições mais brandas e contrárias ao sistema governamental escravocrata, quando o mesmo foi abolido - mas há muito a ser lido sobre as posições declaradas e individuais, das diversas igrejas protestantes.

À MARGEM SOCIAL, NUM NÃO LUGAR
Contudo, o movimento cristão - de modo geral -, foi seletivamente acolhedor e comungou com a escravidão - houve consenso ao não ser anti-escravista. Não promoveu o discurso e ações emancipacionistas efetivas.

O Protestantismo correspondia com os interesses da classe dominante - os senhores de terras/senhores de escravos. Isso era claramente visível nos veículos impressos - de autoria dos missionários protestantes -, por exemplo, o povo negro não era contemplado como agente de mudança histórico-social - mas sim quem antes o detinha: os senhores.
Nesse momento - após a abolição - a visão que se tinha é de que o povo negro deveria ser "resgatado, regenerado e educado", segundo os princípios morais protestantes e então só assim este se tornaria humilde e distante da rebeldia (raiva), para que pudesse se tornar produtivo e ativamente saudável na práxis: o caminho que leva a sociedade a liberdade.

Desprendido de seus senhores e teoricamente livres, os negros se perceberam num não lugar, instalados numa sociedade com bases racistas, sem infraestrutura ou oportunidades de trabalhos para se edificarem - sozinhos - como humano.

A FÉ QUE LIBERTA: CONTRA TODA OPRESSÃO
Um pulo - com pernas grandes - aos dias atuais, para compreender de forma coesa a presença negra num espaço considerado racista - pós conhecimento da participação dessa fé, num sistema escravocrata.

A leitura do livro sagrado, a Bíblia, desde o princípio foi feita a partir do olhar eurocêntrico, sexista, classista...
Para o começo de uma fé libertadora, é preciso que a hermenêutica seja apropriada a partir da perspectiva e história de quem a lê - por exemplo, quando os negros, a classe dominada, as minorias tornam sujeitos que reinterpretam e conduzem o sentido da leitura é diferente de como o cristão-fascista a faz.
Não há leitura neutra e absoluta e com isso é possível [re]conhecer o Evangelho, que é de fato acolhedor, abundante em amor.

"É importante ressaltar que, em momento algum, a Bíblia foi neutra diante da escravidão, antes serviu como “ferro em brasa” e “algemas” que aprisionavam negras e negros no “doce inferno” do engenho de açúcar." (...) "foi usada não apenas para legitimar a escravidão, mas também para amaldiçoar o povo negro, através de sua interpretação repleta de etnocentrismo"(ref. 1)

A Teologia Negra (Teologia da Libertação) - surgiu entre 1966 e 1969 nos Estados Unidos, sob a liderança de Martin Luther King - nasce da discriminação vivida e designa a libertação do "pecado social que marginaliza e escraviza".

"...Ela se concentra na reflexão teológica sobre a luta dos negros norte americanos, liderados no princípio pelo pastor batista Martin Luther King Jr., para conseguirem a justiça e libertação sociais, políticas e econômicas numa sociedade dominada pelos brancos. (...) Ela encontra na Bíblia uma base para o sentido político da libertação, isto é, o êxodo do Egito. E ela encontra na experiência religiosa dos escravos negros, manifestada nos seus cânticos, sermões e orações que destacam a ressurreição de Jesus, a base para o sentido escatológico ou futurista da libertação. A teologia negra pode ser classificada como um tipo de teologia de libertação, pois ela se preocupa basicamente com a libertação de um grupo de oprimidos..." (ref. 9)

O povo negro cristão, reconhece o Evangelho como potencial libertador, trazido por Jesus Cristo, Aquele que foi penalizado com morte por sustentar seus princípios de justiça.
A divida histórico-social com os negros, não deve ser atribuída a Deus e seus ensinamentos. Iniciou-se com a leitura e [não]ações intencionalmente violentas pregada pelo Estado-Igreja, para legitimar seus interesses.

Pelas vezes que puseram sob analise a sanidade negra e a atribuíram incapacidade coerencial, quando este sujeito se afirma cristão: não há amnesia histórica. É preciso reinterpretar as escrituras - pela perspectiva do oprimido - e a representação de Jesus:
"Aquele que condenou o acúmulo de riquezas; andou com os pobres; anunciou a partilha dos bens; disse quera preciso escolher entre o amor a Deus ou ao dinheiro; impediu processos de execução; não estimulou a violência; acolheu as pessoas humilhadas pelos preconceitos culturais e religiosos; confrontou as estruturas de poder..." (...) "precisamos abraçar a causa da justiça econômica; do respeito à diversidade; da critica ao poder; do grito dos oprimidos."(ref. 2)
"Liberto e livre, ninguém aqui é incapaz,
Viver bem com a consciência Plantando a semente da paz
Ajudar ao próximo mais do que você pode
Sei que és forte, corajoso, não mede esforços,
A força divina não vai lhe abandonar,
O despertar do amanhecer é uma nova conquista,
De quem não se entregou e para aquele que acredita,
Injustiça não há nas mãos de Deus,
Se apegue a ele...
" (Se tu lutas, tu conquistas", Somos Nós a Justiça) 
Prevaleçam o Amor e a Caridade. Permaneçam a lucidez, a participação social, a promoção da dignidade da vida, o movimento progressista... que Teus passos sejam seguidos.
A Tua imagem e semelhança: um Jesus que abraça a diversidade e desmonta o etnocentrismo.
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Indicação:
a. "Não existe leitura neutra da Bíblia", Ronilso Pacheco. <link>

Referencias bibliográficas:
1. "Hermenêutica Negra Feminista: um ensaio de interpretação de Cântico dos Cânticos 1.5-6"., Cleusa Caldeira. <link>
2. "Jesus era de esquerda?", Henrique Vieira. <link>
3. "Como a Igreja Católica tratou negros e negras nestes 507 anos?", David Raimundo dos Santos. <link>
4. "'Negro não entra na igreja: espia da banda de fora' - protestantismo e escravidão no Brasil Império", Márcia Leitão Pinheiro (resenha do livro). <link>
5. "500 anos do Protestantismo e escravidão no Brasil", Hernani Francisco da Silva (para Afrokut). <link>
6. "As igrejas coptas da Etiópia: Em busca das raízes cristãs", Marcello Lorrai. <link
7. "Afro Cristianismo no Brasil", Marco Antonio Sá. <link>
8. "O Protestantismo no Brasil", Alderi Souza de Matos. <link>
9. "A Teologia Negra: Uma introdução", Filipe Dunaway. <link>


 esta soy yo!Eli Belizário
Cristã, afrofeminista
 
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