agora também tô no medium!

Carta introdutória Àquele que não gerei

segunda-feira, 30 de julho de 2018
Eu sonhei com você. Sonhei com o dia que eu descobriria sobre seu interesse em confiar em mim. Sonhei com minha barriga tão redonda e calorosa quanto o Sol. Sonhei preparar a sua chegada, com meus seios fartos.

Eu acreditei em mim. Acreditei que nasci para ser tua mãe. Acreditei que meus braços ficariam macios e minhas mãos se tornariam mais firmes do que agora. Eu acreditei que você teria um pai, muito melhor que a mim.  Acreditei.

Eu pensei que seria uma mãe com sorte. 

Então lembrei de todas as vezes que de algum modo me fizeram sentir indigna da vida e acreditei. 

E então eu decidi. Eu não decidi só, as estatísticas, as ações negativas, as instituições... Eu decidi não gerar você porque dói demais não ser reconhecido como humano. Decidi que o mundo é indigno de você, na mesma quantidade que é indigno de mim - porque não pode ser o contrário.

As minhas preces - isso, quando eu consigo - agora são por você.
Desaprendi te desejar. Desaprendi porque teu rio de lágrimas não poderia desaguar em mim. Há tempo transbordo - e você, afogaria?.
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Escrevo ao filho que não terei. Ao fim do todo, espero que perceba que não sou suficientemente egoísta.

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