Goela rasa

sábado, 21 de julho de 2018 Nenhum comentário
Engoliu outro copo amargo e raspou a língua contra os dentes com muito esforço - parecia espessa o suficiente para não caber dentro da boca. 
Se lavou, o mais rápido que pudera e se pôs a dormir. 
E de dentro dele, se ouvia um barulho que batia contra as janelas do quarto e voltava como eco. Era ronco, um conjunto deles. 
Mas o sono parecia se atrasar naquela noite e o barulho nascia no estômago.
E no meio do atraso, levantou repentinamente, caminhou descalço e  tão depressa, que no andar de baixo se podia ouvir o batuque nos pisos.
Pôs pra fora o jantar e a embriaguez da crença nas convicções alheias. E foi a última vez.
Olhou dentro dos olhos do reflexo na água, que lhe murmuraram sobre deixar de engolir tudo que lhe era servido.
Fármaco pra suportar as surras, adoece a mente. Na bula, tudo é escrito com técnica pra não entender que o efeito consequente é a submissão.
Manipulação.
Daquela noite em diante: "Goela rasa!". O que não promove melhora, volta pra fora noutro instante.

O feminismo negro é necessário?

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INDICAÇÃO DE LEITURA: "QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?"



Autora: DJAMILA RIBEIRO
Título original: QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?
Páginas: 152

Lançamento: 08/06/2018

Selo: Companhia das Letras

A obra se inicia com uma autobiografia, onde a filosofa resgata sua relação dolorosa com o racismo na infância e na adolescência.
Ainda na adolescência, ela começa a trabalhar Casa de Cultura da Mulher Negra, lugar onde ela tem contato com mulheres negras escritoras, que a encorajam a ter orgulho de si mesmo e sua ancestralidade. Nesse momento ela também sente-se empoderada para sair da invisibilidade.

No conteúdo seguinte da obra, encontra-se uma coletânea de textos da autora publicadas no blog da Carta Capital ao longo dos anos. Esses texto são insurgências às ações raciais, de gênero e de classe, recorrentes nos dias das pessoas negras, tais como: violência, saúde, racismo, objetificação do corpo, descaso das vidas sob a omissão do Estado, processo de humanização, decorrente do mito da democracia racial, mito da mulher moderna, empoderamento feminino e outros.

(E quem é que tem medo? Quem reconhece que usufrui mais direitos, em detrimento de outros grupos - superexploração -, e teme perde-los)

a me perder de vista

segunda-feira, 16 de julho de 2018 Nenhum comentário
teus olhos,
teus olhos não podem reduzir minha cor a da poça de lama
enquanto desejas me sentir à pele
teus olhos,
teus olhos não podem cobrir minha imensidão
ficaram pequenos,
pequenos demais
o que vês,
são só partes de mim
o que não conheces,
não podes amar.

Por quê mulheres negras são raivosas?

sábado, 14 de julho de 2018 Nenhum comentário
Epa! Ao que parece, agora vai!
Esse nosso canal queridão nasceu em 2012. Em 2014 inaugurou teu primeiro vídeo - que hoje, nem rastro existe mais.
Entre oscilações da minha determinação, agora ao que indica, se estabilizou e com promessa de conteúdo, todo sábado - vamo ver!.

Ao assunto, vamos ter uma conversinha sobre a agressividade na fala das mulheres negras. É só apertar esse botãozinho bonito logo abaixo!


  • Ao dizer que "o individuo que tem a voz ouvida, "passa a ter um compromisso politico" em empoderar outros que estão sujeitos às mesmas violações que este", existe uma importância para alem disso, é preciso também que antes o individuo tenha um compromisso ético.
  • Empoderamento, além de levar o conhecimento para o máximo de indivíduos possíveis através de ações coletivas, é também oferecer condições mais equânimes possíveis, a partir do que lhe é possível. O importante é a construção coletiva.
  • "Assisti o vídeo, gostei bastante da abordagem, ela é necessária. Vou colocar um ponto que eu, bem particularmente, acho que colabora para essa visão de mulher-negra-raivosa, a questão é que sempre estamos sozinhas. Quando, na internet, por exemplo, alguém comete um ato, uma fala racista, a IMENSA GRANDE maioria das pessoas negras que debatem, discutem e fazem "textão" explicativo dando a cara a tapa, somos nós, mulheres. Os homens, mesmo os parceiros, quando conscientes, se omitem muito ainda. Muito mesmo! Portanto é fácil chamar de raivoso quem se expõe." (excelentíssima colocação, de Taynara, no Facebook)
  • Indicação e referência: Os usos da raiva - Mulheres respondendo ao racismo, de Audre Lorde

A neutralidade não promove mudança!
Espero que goste!

Vamos por a boca no trombone!

domingo, 8 de julho de 2018 Nenhum comentário

A expressão "por a boca no trombone", tem o significado de "denúncia, grito; não vou me calar". Sou cheia dessas breguices do interior e achei adequado ao tema.

O que eu pretendo provocar com esse video é a reflexão sobre "Quem não ouve, silencia!". 
Quando afirmo esse pensamento, não digo que se você não assistir o que eu disse, você  estará me silenciando - considerando uma análise superficial. O silenciamento é um processo construído, que tem inicio no nascimento - é o que tentei explicar.

Apesar da ingenuidade comunicativa; do desconhecimento dos recursos tecnológicos, sinto felicidade em compartilhar com você esse material.
A partir do lirismo, me espus em prol do coletivo.

Por fim, espero paciência e compreensão. Não juro, mas tentarei melhorar em tudo nos próximos, se houverem. 

Te espero!
Até aqui, obrigada! 😊

A sublimidade contra a espetacularização

terça-feira, 3 de julho de 2018 Nenhum comentário
"Aonde quer que você vá, /O que quer que você faça, /Estarei bem aqui esperando por você"

O uso da letra citada é um exemplo de como age o racismo sobre o corpo negro (composição de Richard Marx, que relata uma declaração de amor romântico, que não vem ao caso).

Com as bolhas que não param de explodir, é impossível silenciar o debate quanto a objetificação da mulher. Portanto, ainda é necessário fazer um outro recorte e esclarecer sobre quais mulheres estamos falando.

Como bem dito por Djamila Ribeiro, as mulheres - brancas e negras -, só compartilham da mesma luta, contra o sexismo (machismo e misoginia). Mulheres não brancas, ainda precisam lutar contra o racismo, porque ainda que oprimidas, as mulheres brancas fazem parte da parte que sempre esteve em ascensão social.

Recentemente, o cantor Mc Lan, disse num vídeo no youtube que "tem fetiche por negras", referindo-se a cantora Ludmilla. Fetiche - resumidamente - é um objeto ou parte do corpo que promove excitação sexual - conotação qual aparentemente foi intencionada do cantor. Não é surpreendente, dito por um homem que conscientemente disse que "se ficasse com homens", seu crush seria o Johnny Depp "por se parecerem nas loucuras", este que foi denunciado por violência pela ex cônjuge (Johnny, foi dos meus favoritos no passado - ironicamente, fora do campo artístico).

Quanto respeito merece um corpo feminino?
Mas este é só mais um fato.

O corpo negro, sempre foi transformado em espetáculo. Homem também sofre objetificação, com apelidos e adjetivos que conhecemos.

Aos homens e às mulheres, sempre precede alguma definição. Enquanto o corpo branco [rosado], sempre foi sublime dos pés à cabeça.

Não somos descartáveis.

Três vezes um terço

segunda-feira, 2 de julho de 2018 Nenhum comentário
Se tua beleza morasse só noutros olhos
Haveriam sete bilhões de reis
Tangeriam sete bilhões de palavras absolutas

Posto que pedisses fidelidade
Qual a certeza de que te descrevessem à risca?
Quão confiáveis seriam os olhos que não te devessem lealdade?

Com sorte*,
Podes reparar só, cada parte.















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Mulheres negras - crianças, adolescentes e adultas -, precisam de ajuda para rasgar a venda. E a probabilidade de desconhecer o que enxerga, é de 3/3 - digo também, da beleza para além da visível. O intuito do racismo patriarcal é a omissão da humanização.
*De fato, a sorte não é sorte. O nome é outro.
 
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