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domingo, 22 de abril de 2018
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (José Saramago)

Alguns olhos vêem os rostos alheios por capricho ou descapricho - os que gostam de elencar o que não lhes atraí  -, outros como apreciam e investigam a história. Atentos aos detalhes.

Meus olhos. Muito amigos dos espelhos que escorrem pelas paredes de casa ou dos que se atiram em minhas mãos e se entrelaçam em meus dedos tortos e compridos.

Meus dedos. Pela manhã trabalham como quem desejam impressionar - para não perder o emprego. Ajeitam meu cabelo como gosto, lavam e hidratam o meu rosto... Por fim, desenham sobre minha pele um par de sobrancelhas.

Um par de sobrancelhas. Meus dedos são criminalmente responsáveis por reproduzirem inúmeros falsos históricos. Desenham o que nunca houve aqui. Não há fidelidade ao real em tuas representações artísticas. Pinceladas com tinta marrom mais escura que minha pele, aplicadas sem precisão ou simetria.

Minha pele, um campo minado. Pequenas depressões a se perderem de conta: espinhas e seus vestígios e verruguinhas insensatas.

Tudo que fiz para ser, de fato não me fizeram, se ao fim do dia, nua, resta[va] só eu em mim. O que não deixei de fazer para ser? Decerto era o meu mais preocupante dos problemas. 

É, ando à mercê dos descaprichos. Mas, mais do que coragem, é preciso sentir amor. Não há coragem  [de lutar] que se sustente, se não houver amor pela causa.

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