contradição

terça-feira, 30 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
gosto de gente sabida, mas que sabe mesmo e me faz saber do que sabe porque sabe que gosto. é bom saber sobre as coisas em todos os seus lados, e sabendo, algumas se personificam e deixam de ser coisas. mas, outro dia tentaram: "quer saber a versão de Judas, da crucificação de Jesus?". talvez não gostava de mim - mesmo sabendo de minha crença, vir com tentativa de sabotagem -, ou, por outro gostasse a ponto de pedir que eu consentisse antes de me fazer saber do que não gostaria.

Não é segredo

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De pensar que sou verme, meu rastejo já está sendo preparado. Os principios do pensar quase se equipara ao do verbalizar. Não que em tudo que se faça, haja profecia. 
Assim como as coisas quando andam bem e no mover das pálpebras se desfazem, sem que tivessem mostrado indícios; há nas coisas ruins, a possibilidade de se dissiparem. Os religiosos chamam de fé, mas o menos importante é o nome que se dá. É o acreditar no que não se vê - e não digo só das coisas relacionadas as divindades -, desejar pra si os próprios desejos e contribuir para que se materializem - porque sem ação, a fé é morta, como disse Ananza.

Precedências

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Há exatamente um ano atrás nos servíamos bolo de chocolate com chocolate, no trabalho. Teve foto, nunca partilhada aos olhos não participantes. Há momentos que não carecem registros ou exposição - e não vazam, pelo menos pelos meus dedos. Vinte dois anos em um ano depois. Há velas, porém fúnebres. As pessoas queridas de nossas pessoas queridas se vão. Ninguém ousa perguntar se está tudo bem. Não há bolo ou felicitações. Precedências. E lancemos fora o egoísmo. E como as pessoas, aos poucos, este também se vai. A diferença, é que não nos deve fazer falta.

tiroteio

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
pra todo que é lado seu,
atiro o que mais belo sei dizer,
fazer.
se um dia suspeitar bombardeio,
em tempo,
salve-te de mim.

O que te faz feliz também provoca dor

domingo, 28 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
Durou mais de um mês o planejamento do passeio. Minha mãe me convidou e disse que pensaria. Minha tia confirmou presença e quando se referia, me incluia, como se já soubesse que eu iria.

Chegou o dia, era feriado aqui mas para onde iríamos, tudo funcionava normalmente. Eu que omiti todas as questões anteriores, nesse dia, ainda deitada, minha mãe abriu a porta e questionou outra vez: "Não vai mesmo?", e a resposta foi negativa. Minha tia, que estava tão empolgada, fez o mesmo.

O dia estava chuvoso e mal puderam aproveitá-lo. Os lanches que levaram, quase não deram pra tocar o estômago - precisaram dividir com os outros companheiros.

Chegaram cansados, famintos e com um semblante que reconheço. Chateados, contaram-me como foi. Disse que sentia muito, mas sentia - e sinto - muito pelo modo sobrevivência, o qual a fauna carcerária é submetida.

Ir ao zoológico - e levar lanche de presunto - é diferente de quando acordo com o shorts molhado de sangue e consequentemente, uma faca de dois fios samba em meu ventre. Existem situações que posso escolher não compactuar com a dor. Mas, escolhas são renúncias...

exterminador

sábado, 27 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
chega de remendos! 
que as próximas mãos sejam corajosas para subistituir as agulhas por uma tesoura e que o dilacere inconsequentemente.

elasticidade

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se agigantam e se encolhem a pouco de nós. outrora nos fazem caber dentro de si, ora dizem que não há mais lugar.
com o peito cansado, o coração latejando e as mãos frias, partimos com o fardo cheio de frutos podres - da expectativa.

desgraça reprimida é a pior desgraça

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
nos picos da desgraça as nossas pessoas demonstram condolências, dizem ficar à nossa disposição e quando as solicitamos - comumente - dizem: "essa fase vai passar!", "vamos para o lugar x e você esquecerá"...
mas até a desgraça é para ser vivenciada. chorar o necessário, expelir a mágoa, contar às paredes, rebelar-se sob o chuveiro... 
o que reprimimos, aumenta feito a bola de lã que dona Jane enrola enquanto desmancha aquela blusa que não a serve mais. a intenção é sempre a mesma: fazer uma nova peça, mas os afazeres clamam e nunca sobra tempo. ficará guardado por tempo indeterminado, como os sentimentos que fugimos nas horas más.
sentar na sala sem dizer nada é mais cuidadoso do que mensagens clichês. só precisamos saber que podemos estar em companhia de quem não nos cobra melhora imediata e está pronto para nos ver num estado detestável. esses são os ombros que nos desejo.
sabemos que vamos superar. no fim da linha subsiste uma força. e depois, esse fim deixa de ser fim.

Fraqueza confessa

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Não tire-lhe a casquinha se não puderes curar. Será mais louvável o gemido do sofrimento, do que a revolução inacabada.

A vida que fui casa

terça-feira, 23 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
Suja e abandonada. Abaixara o aluguel: "Nem de graça!" - soltaram -, não houve jeitinho que convencera. Não houve orçamento para reforma que fizera valer a pena. Tempos acumulados, sem saber-se lá o que era cumprir função social. Todo que passara, depredara. De pouco em pouco...
"Parece que o último ficara com chave". Na verdade, fora doada - "Só de graça!" - ao poder público, que ao menos, destruíra duma vez. E no território, outro desses empreendimentos de uso misto fora assinado pelo engenheiro civil antigo senhor prefeito. 

Subjetividade?

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O inferno é a submissão sem data de encerramento. O ronco da fome aquietado com água. O frio calculista coberto com meia caixa de papelão. O recebimento das sobrancelhas erguidas da soberbia. Ser mais amado - no mundo - por alguém que não seja si próprio.
Depois tem mais? Com efeito, não haverá mais nada a ser consumido...

Cronologia psicológica

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Assistir o corta-gotas da cafeteira, que ao final, xícaras completas; descronometrar a data do reencontro, tantos dias pra um; aguardar pela senha, horas na fila, pelo resultado positivo do exame.
No esperar, descobri a paciência que nunca quis ter. De fato, gastei toda a ansiedade com o que tivera que acontecer, independente dela.

Obviedades

domingo, 21 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
No que ele não diz cabe o óbvio. Isso que, ao olhar em seus olhos flamejantes, decerto, deverias saber.  
Se não podes ver o que não está escondido, diga-lhe também o óbvio: que as flamas não te incendeia mais.


Algo morrera em silêncio...

sábado, 20 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
"Deitado no escuro, fiquei espantado ao perceber que algo em mim, algo havia muito tempo doente, morrera em silêncio; e me senti como um marido que, no quarto ano de casamento, de repente descobre não ter mais desejo, carinho ou consideração pela mulher outrora amada; nenhum prazer em sua companhia, nenhuma vontade de agradar, nenhuma curiosidade sobre qualquer coisa que ela possa fazer, dizer ou pensar; nenhuma esperança de acertar as coisas, nenhum sentimento de culpa pelo infortúnio."
(Prólogo de Retorno a Brideshead - Memórias sagradas e profanas do capitão Charles Ryder, por Evelyn Waugh)

Algo morreu em silêncio. "Nenhuma esperança...". Talvez te ocorra que seja egoísmo, ora, nem nisso mais há respiro. Vai-te para onde sabes que serás aquecido. Dissipou-se o ímpeto em alimentar a fogueira. Resta-me os maus tratos do inverno - dentes contra dentes, rasgos nos lábios, pêndulos neurológicos... - e o anseio pelo seio da terra.

eis algumas questões

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
- escuta só - e lidos foram alguns versículos bíblicos...
- ‎ah, esquece! são os mistérios do Cristo
- mas ele não quer que o sigamos vendados. somos amigos, não súditos...
- ‎pois peça que ele te explique!
- ‎ele não me deve explicações...
- ‎...
- escuta esse. e mais esse. agora é o último, juro! - e feitas foram algumas considerações.
- você está entendendo errado! ultimamente anda vistoriando a bíblia...
- ...


Muito másculo!

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Armas mais fortes. Tanque mais cheio. Alta voltagem. Na rua, harém de 'vagabunda mulata' - sujeitinho insignificante. Sem choro, sem massagem, sem chance, sem isso de querer sentir. Dente por dente. Sangra sem dor. Não se corrompe pelo amor. Sentimento suprimido. Perversidade,  força, inflexibilidade, intolerância, independência, racionalidade, auto-suficiência, soberania. "Coisa de homem!"

Atribuição de papéis. Evitação da feminilidade:  cultura do estupro, homofobia, misoginia, machismo, racismo, feminicídio. Abatedouro de mulheres: construção - tóxica - de masculinidade. Impunidade...

"EM NÚMEROS: A violência contra a mulher brasileira(acesso em 19/01/2018, 15:48)
"ONU: Taxa de feminicídios no Brasil é quinta maior do mundo" (acesso em 19/01/2018, 15:48)


organicamente

terça-feira, 16 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
deleite inconsciente é o estado de quem está feliz.
a felicidade não ouve a consciência, pois, se quando estás feliz, lembras dos tropeços da vida, noutro instante o sentimento se recolhe. tampouco escolhe através de que(m) se manifestará. basta que estejas inteiramente no momento, sem buscar na consciência sentimentos indiferentes. a pureza do manifesto.


Valei-nos

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
Outro dia veio a notícia de que a 'prova do pecado' do outro, fora atirada sob a porta do templo para que no próximo culto fosse encontrada pelo primeiro despreparado. Não se sabe quem fora.

"Pior do que os que praticam o mal, são os que podem, mas não fazem o bem". Fazer o bem, às vezes é não fazer nada diante das circunstâncias alheias que não nos cabe intromissão. 

Haja compaixão pelos que tentam corrigir o próximo à sua maneira, decretando punições. 
Rogo misericórdia por todos - mas a misericórdia não ameniza o linchamento momentâneo que o transgressor, segundo os princípios de fé dos juízes, é submetido.
Eu que sequer tenho forças, faço como Ana: "...falava no seu coração; só se moviam os seus lábios, e não se ouvia a sua voz..."

Tem gente que martiriza o Cristo todos os dias, selecionando espíritos à pena de morte e excluindo-os do direito de salvação. Parece que também foi lhes dado o poder nos Céus e na Terra...

Gosto muito mais do "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei", do que "Afastai-vos de mim porque não vos conheço".

Salmos. O livro dos  justos, oprimidos, cansados, aflitos e transgressores arrependidos. "A ira de Deus dura um momento só, mas a sua benignidade é eterna."


por trás das cenas

domingo, 14 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
onde há companheirismo,
pode haver solidão.
onde não há um grão de sentimentalismo,
pode haver amor profundo.

Querido, é a vida

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"E dentro de cada poça, por menor que fosse, haveria o céu... o céu que às vezes um passarinho desmanchava... um passarinho que tinha sede e sem saber desmanchava o céu da água com o bico... ou alguns passarinhos escandalosos que desciam das folhas como raios, se enfiavam na poça, tomavam banho com as penas arrepiadas e desmanchavam o céu com o barro e bico e asas... Contentes..."
(Capítulo XLIX, de "A praça do Diamante")

"... ainda que no mundo haja tanta tristeza, ele sempre ainda pode ser salvo por alguém com um pouco de alegria. Alguns passarinhos, por exemplo." 
(Posfácio de "A praça do Diamante", por Mercè Rodoreda)

calcifiquei-me

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
não estou mais à flor da pele, ferida ardendo a sangue frio, para que toque e saia limpando as pontas dos dedos, como quem tenta destruir a evidência de que estiveste aqui. não estou mais em cartaz para que pague por uma noite de exibição. minha carne deixou de ser de segunda, não caibo mais no teu orçamento, aprendi a escorregar pelo furo no bolso. eis-me aqui, cuspindo muito mais ferro que sangue quente.

pretérito perfeito do indicativo

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018 2 comentários
a quarenta anos mais
se lamentares arrependimentos
direi que até quando pecaste
foste por amor.

diminuto

terça-feira, 9 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
se espremida, meia gota
palavra incompleta
edição pocket 
na entrelinha
dentro do ponto final 
entre um respiro e outro... 
quilos, metros, espraiados pela metrópole
cortando o céu cinzento num viés invisível
dissipando no sopro do carbônico
onde as nuvens são de lágrimas
o fim, desejado
a lástima, poupada
e a despedida, imprecisa.
outra partícula que parte
ao dormir com a Lua,
o Sol acordará desacompanhado.


Perdão é reconquista

2 comentários
Há pessoas que nos magoam e não pedem perdão. Por uma infelicidade, talvez não sejam sensíveis quanto nós e pensam que tudo segue intacto. Mas, fazemos valer mais as que voltam com pedido de remissão em língua - ah, tem as que pedem não verbalizando e os gestos não são menos válidos.

Perdoar soa bem. E por sermos conscientes de que o perdão é necessário, nos submetemos à desordem do perdoar, porque, pior é a desordem da mágoa.
"A mágoa altera as estações e as horas de repouso, fazendo da noite dia e do dia noite."
(William Shakespeare)
O conflito que mais se faz difícil é o interno.

Quando perdoamos no imediato, nos segundos pós magoa, é a forma mais fácil de recolher a culpa que estava no outro pra dentro de si. Agora então, guardamos mágoa e a culpa que retiramos do ombro alheio. É como recolher o lixo pra dentro casa. E sozinhos, teremos que defrontar com tudo.

O processo do perdoar é reconquista de nós para nós mesmos. Há necessidade da desconstrução. O trabalho de nos convencermos que tudo vai voltar ao antes do marco, é varrer as marcas para um lugar de caminho sem volta e deixar tudo limpo.

Agora, é o momento de estar pronto para receber o visitante outra vez. É também estar disposto para a tentativa de reconquista do outro para nós. Talvez não haja harmonia em todas as recepções. Patologias.
"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te".
(Friedrich Nietzsche)
A manutenção periódica nas raízes dos nossos sentimentos deve ser inevitável. Substituir as peças irreparáveis é necessário para o nosso bem funcionamento. Em palavras diretas, não precisamos deixar as chances inesgotáveis aos que não puderam reconquistar a dádiva de nossa confiança. "Ninguém habita em nós, habitua", então, podemos seguir sem os quais não nascemos dependentes. 
"O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte."
(Friedrich Nietzsche)

nenhum canto será tão sofrido

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
ao ler meus versos imaculados
teus olhos não esperarão pelo sono
e o choro será por alegria
tudo que não foi dito
caberá
chorará só, o sabiá
pois os versos imaculados,
lhe roubará a companhia no mundo que nos coube viver
renunciarei a hora que me atiraria teu sorriso mais bonito
que guarde, à quem terá a coragem de dizer tudo que caberá nos versos imaculados,
olhando ao fundo, nos olhos
dilatando o peito.

Amanhã talvez não seja, o que hoje parece ser

domingo, 7 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
A convicção é uma coisa que até os sábios omitem ter - subentende-se. Desconfio dos que juram que suas crenças são absolutas. As coisas nem sempre são o que parecem e noutra hora a gente desperta e descobre o tolo que foi - ou não. Há um tempo acreditei com excelência, que precisava justificar porque era quem eu era ou deixava de ser. Depois, descobri que fazendo assim, destravava o gatilho para que soubessem onde em mim havia mais vulnerabilidade. Também admirei o inverno, até descobrir que não era recíproco - pelo contrário, maus tratos ao extremo. Mas o tempo é rei, e aos que ouvem, diz, se a tal verdade/convicção prevalece. 
Você não pode coagir os outros para que acreditem suas verdades - infelizmente, nem nas coisas boas; menos ainda, nas demagogias. A menos que não esteja tentando ser uma boa pessoa. E se está tentando ser uma boa pessoa, deixe livre os que te escutam. E se os seus não quiserem acreditar suas verdades, isso não define o que sentem por você, os bons se atraem, independentemente, se análogos ou opostos. Mas você não precisa acreditar no que eu digo.

pérolas aos porcos

sábado, 6 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
a compaixão de meu âmago, 
é sentida pelos que destinam energia ao ódio.

a demanda da aversão, 
desgosto e rancor, 
inimizade e repulsa...
insaciável!

o que resta à afeição? 
lamentável destilação.

alma velha tem seus êxitos:
a premissa de que pérolas não se lança aos porcos.

toma lá! dá cá!

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
a comunhão de todas as sensações e sentimentos - grotescamente - que compõe o nós, é a alma. assim como a união de todas as virtudes, é a caridade. 

que vezes mais se lava, senão quando há acumulo de impurezas? um respingo ou outro se remove com cuidado localizado - se tratando de alma.
um renascimento em cada vez que lavá-la, tempos de ascendência lançados fora.
"- toma lá! 
- dá cá, tudo que te há!"
aos de alma exuberante, feliz quem recebe os descartes - às águas viçosas do mar, baita oferenda!

busquemos luz, para que com sabedoria, possamos reparar os respingos e vigiar as impurezas para que  não se massifiquem.

confronto efêmero

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
o café do meu amigo parece sempre estar mais cremoso. capturo uma foto no ápice de minha beleza e arquivo depois de descansar sobre o retrato da moça mais bela no mundo.

são as impressões referenciais do que é belo tentando iludir. a desgraça é lucrativa pra ascensão capitalista: "em busca da debilidade espiritual e da abstratificação do real" - meu eslogã pro capitalismo.

a esperança pelo dia que desnudarei a alma, não se abstêm. com tempo, decerto dedicarei graciosamente à mim, minha melhor admiração, como o velho Gaudí¹ a observar a Sagrada Família.
"…uma obra que está nas mãos de Deus e na vontade do povo" - disse.
Gaudí se foi em 1926 e a obra ficou à concluir - a previsão é pra 2026. uma arte coletiva, cada contribuição é indispensavel, sagrada. 

não há quem esteja pronto ou apto à se definir, somos seres mutáveis com sentimentos ambulantes.

deixemos de ser hostis conosco. fragmentemos as balizas do sistema. não evitemos de parar para a contemplação da vitória por temermos ser atropelados - o medo arquiva os sonhos mas os sonhadores arquivam o medo. sejamos corajosos pra reconhecer que somos vencedores. como nós.

¹Antonio Gaudí, arquiteto catalão, aos 75 anos faleceu após atropelamento - por um bonde a 10km/h - enquanto observava a Sagrada Família.

estica que dá!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018 Nenhum comentário

trenas! as manuais, existem de três, cinco, oito e outros metros. é abominável esticá-la ao limite, pois há uma probabilidade gigatesca de separá-la da base, tornando difícil o manuseio e armazenamento. um dos fatos que pode definir o fim da utilidade.

minha primeira - cor de camarão, fita em aço, cinco metros - levava meu nome. pediram pra cuidá-la como uma pomba faz com a cria. pelos tombos, periodicamente era calibrada pra validar a qualidade.
entre quedas e desencantos, a força pra carregar entusiasmo.

às vezes a gente atinge a exaustão. é a margem de segurança, depois dos cinco metros, o desconfortável lado miserável. ninguém quer estar lá: entre o não saber e o querer.
é nesse momento quando se faz valer o seu credo - no fim da linha subsiste uma força.

uma vez, essa mesma trena cortou meus dedos em sua lâmina - de dois gumes - afiada, pra intimidar ou chamar a atenção. somente aceitei, permitindo que deslizasse moderadamente - são coisas que não são obvias, compreende só que está atento aos sinais. são os chacoalhões quando algo deseja te despertar.

onde acende a luz pra que repare o caminho e não chegue ao fim da lâmina antes do tempo? 

não se sabe quantos metros de caminho tem a vida. cuide pra não atingir a exaustão inúmeras vezes.
entre quedas e desencantos, deve haver força pra perdurar o tesão de continuar se flexionando, indo e vindo, envergando ao oposto sem fragmentar.

"estica que dá!", não! o universo está conectado ao seu compasso.

Qual a cor do pecado?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018 Nenhum comentário
an artist's palette - via wikipedia

Da língua de fogo que tosta a carne suína?
Do medo que arquiva os sonhos?
Do final dos vinte segundos do terceiro tempo?
Da mágoa que convence a não receber perdão?
Do sangue derramado pelos seus caprichos?
Dá concentração de privilégios?
Da omissão dos direitos?

Dê-me licença para lhe dizer
qual a cor que o pecado não veste!

Das mãos que te servem a mesa
e varrem seus rastros derrapados
Dos pés festivos que dançam o fevereiro
Dos lábios que oferecem gomas açúcaradas e malabarismo no semáforo
- em troca? Dinheiro -
Da densidade que escorre entre as pernas
Do corpo que não lhe deve o penhor do agrado...

Qual a cor do pecado?

Deixe-me dizer que a sua paleta
não é absoluta
Diga-me quantas cores combinam?
Há consentimento para que introduzas o polegar em seu orifício?

Qual a cor?
Do solvente que dissolve a massa?
 
Desenvolvido por Michelly Melo | Ilustração por Gabriela Sakata