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Eu, vitimismo: Capítulo I - Relacionamento afrocentrado, solidão preta e palmitagem...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Tais Araujo e Lazáro Ramos 💛

"Relações afrocentradas são aquelas que envolvem escolha de e entre parceiros negros, podendo ser de diferentes gêneros e orientações sexuais." (Stephanie Ribeiro)


Confesso que não tenho intimidade alguma com o assunto, pois nunca me envolvi numa relação amorosa. Pesquisei e li alguns artigos antes de vir escrever, como sempre faço. Confesso ainda, que tenho receio de falar disso.
A ideia desse texto ressurgiu pós a leitura de um texto de uma amiga de rede social, onde a mesma dizia que não se submeteria mais, a um relacionamento afrocentrado e que ainda, admitiu estar bastante feliz com o relacionamento interracial (entre indivíduos com etnias distintas).

Para alguns pretos (e ironicamente, para alguns brancos que gostam de ditar o que racismo ou não), o amor afrocentrado é referencial e o ideal a ser alcançado, é a meta vital de relacionamento. Pensam ainda, que todos os pretos deveriam pensar assim. Pensar que esse amor é o ideal, não está errado, mas a análise da experiência é de grande valia.

A mulher preta na sociedade, é vitima do racismo, machismo/misoginia e não são contempladas em grande parte dos movimentos feministas (feminismo da branquitude pseudo good vibes). Por este e outros motivos, o pensamento de que o melhor a fazer para não sofrer tanto, é relacionar-se com outro preto.

Não digo em todos os casos, pois existem casais aparentemente felizes e que nunca relataram abuso de nenhuma das partes, o que é bom. Mas existem casos, onde o relacionamento afrocentrado não é como o conto de fadas do mundo preto, um exemplo marcante foram as agressões que a cantora Rihanna sofrera pelo cantor Chris Brown. Aos olhos externos, tudo era lindo e prospero e ainda houve os que torceram para que os mesmos reatassem a união. Não se pode torcer por algo que é não-saudável ao próximo, machismo é grave e deve-se parar de romantizá-lo.
Rihanna não é a única, e não é só a agressão física que machuca. Tive a oportunidade de ouvir (ainda que virtualmente) diversas mulheres pretas que tiveram um relacionamento abusivo, disfarçado de mar de rosas. 

Falo de homem preto que sente-se inferior ao namorar uma preta enquanto que que o melhor amigo namora uma mulher kit: sonho de consumo (vulgo, branca). Falo de homem preto que pensa que a mulher não necessita de tanta atenção quanto a branca, uma vez que a preta é tratada como sinônimo de força e resistência (quem foi que disse que mulher preta é tão forte? que não tem momento de fraqueza? que é durona e por isso não necessita de apoio?), isso vem da herança escravista, e por assim pensar, termina por deixar a parceira sofrer a solidão afetiva, onde se vê sozinha, lutando para a prosperidade da relação. Falo de homem preto que exalta a beleza branca feminina e diminui ou nega a feminilidade preta. Falo de homem preto que exalta a beleza preta, mas não compromete-se ao relacionamento sério com uma preta e valoriza e pretere envolvimento com a branca: essa é a famosa palmitagem (bonita, mas não para mim). Palmiteiros, tem aos montes por aí (inclusive, ícones midiáticos 'militantes'). Falo de homem preto que só reconhece a mulher preta como amiga, antes mesmo de ter a oportunidade de conhecê-la. Homem preto, que sente-se à altura da sociedade somente ao lado da kit: sonho de consumo

A relação afrocentrada, não é sinonimo de romantismo desde o período colonizador escravista. Uma vez que a mulher preta foi (e é) inferiorizada de todas as formas possíveis, sendo que alguns dos rótulos mais marcantes foram (e são): objeto de satisfação sexual e instrumento para realizar atividades serviçais (e que homem quer estar ao lado de uma mulher dessa?). Então, estar ao lado de uma parceira branca, para o homem preto é um ato de se sentir "tão bom quanto ao homem branco" (eu odeio ter que dizer isso, você não sabe o quanto!).

Diante as todos esses e outros fatos, em algum momento da vida, a mulher preta chega a pensar que está fazendo algo de errado e de que ela é o problema. Eu já pensei e ainda penso isto em alguns momentos, embora esteja em processo de desconstrução e auto-reconhecimento. E por mais indiferente que pareça, quando ouço algum elogio sincero, infelizmente custo a acreditar. Foram tantos anos de desqualificação agressiva da imagem preta feminina que dificulta ter acesso à confiança.

Não pense que estou declarando a mulher branca como inimiga (fosse assim eu seria uma pseudo feminista, e não sou, embora não confie na tal sororidade entre pretas e brancas), até porque, homem não é brinde para que trave-se uma competição ao seu favor. Aliás, mulheres não deveriam competir entre si, por motivo algum.

A mulher preta deveria poder gozar de uma vida plena e poder fazer escolhas que lhe são saudáveis. A solidão afetiva da mulher preta é real e presente. E se alguém se relacionar com uma mulher preta, mas ocultar e evitar o debate sobre racismo e machismo, não vale. Não é uma relação saudável. Ocultar o fato não o faz desaparecer, o espinho ainda continuará lá, furando em tudo que é parte, incomodando.

Não é todo relacionamento preto que terá o final feliz. O assunto é amplo a complexo e penso que ainda deve continuar sendo estudado e debatido (por vozes que tenham dignidade e domínio de fala ao assunto).

Enfim, relacionar-se com uma/um preta/o é ato de resistência, pois passa a conviver com o racismo sistematicamente estrutural e o processo de apagamento da identidade preta. É necessário que saiba resistir e denunciar. É necessário ainda que haja respeito entre as partes quanto as diferenças culturais (mas isto, independente da relação).

Foi tirado o direito de amar entre nós negros. Foi tirado o direito de nos amar entre negros. Isso acontece a partir do momento que era mais importante sobreviver na sociedade escravista do que ser.  (Stephanie Ribeiro)

Relacionamento é saudável quando é construtivo. E por isto, muitos preferem a real solidão. 
Diante de tudo que foi dito, é bom saber que ainda existem relações afrocentrandas que são grandiosas e só tendem a acrescentar...


Música reflexiva pós leitura: 
A intenção de deixar a música e sugeri-la como 'trilha sonora' é exatamente para reforçar e de algum modo 'provar', o quão o homem preto está focado e objetivado a alcançar um relacionamento interracial. Abaixo, breve analise: 
  •  "sou negão e a patricinha é loira de olho azul" =  desnecessária a comparação. sendo assim, entendo que a intenção era realmente grifar e exaltar o tipo de relação e o tipo da parceira;
  •  "as nega do ziriguidum já quer implicar com ela" = reforçando a imagem social impressa, da mulher preta: barraqueira. e qual é a graça em 'diminui-la intelectualmente', uma vez que ele também é preto? a luta não é a mesma? não, a mulher preta sofre racismo e machismo/misoginia, violências múltiplas com efeitos horríveis inclusive dentro do próprio circulo de convivência;
  •  "terminou com o playboy que é la do bairro dela" = como eu tentei dizer no texto, eles adoram se comparar com o cara N, ficar por baixo? nem pensar.

**O objetivo deste texto não é inferiorizar a relação afetiva afrocentrada e enaltecer a relação afetiva interracial. O relacionamento ideal  não deveria, mas tristemente, (para a sociedade) o amor tem etnia, classe e gênero. Que a sede por revolução e a resistência, nunca ausente de nossos dias. Desejo que sobre todas as coisas, o amor e a empatia prevaleça.

✅ #dosesvitimistas

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