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Eu, vitimismo: Capítulo II - A culpa é de Bruna?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016


(ph: Tainan Silva)
Ser mulher, infelizmente ainda é sinônimo de inferioridade (o que me anima é que aos poucos estamos conquistando esse mundinho). Ser preta, infelizmente ainda é sinônimo de fracasso (tá difícil reverter isso, mas unidas, conseguiremos). Ser você for mulher e preta, o sistema te diz que nunca realizará o que sempre idealizou para a sua vida.

Minha relação com o preconceito racial começou bem cedo (literalmente, às 07h da manhã). Na segunda serie do ensino fundamental, por uma infelicidade "conheci" (na verdade, eu nunca me dei a oportunidade de conhecê-la) uma garotinha que se chama Bruna.

Bruna, acordava todas as manhãs disposta a enriquecer seus conhecimentos. Eu também. Bruna era uma das primeiras a chegar, consequentemente, uma das primeiras da fila. Eu também. Mas Bruna raramente ficava ao meu lado, sempre ficava alguém entre nós pois a fila era na ordem de chegada.

Uma bela manhã (foi bela pra muitas outras crianças, por exemplo... que não tinham alimento em casa, pois a escola fornecia café da manhã; foi bela pra muitas outras crianças, por encontrarem seus amiguinhos que mais tarde brincariam juntos; foi bela pra muitas outras pessoas, mas não pra mim) Bruna decidiu que precisava oprimir alguém, pra se sentir superior ou por qualquer outro motivo que desconheço. Sem muito esforço, Bruna escolheu a dedo quem seria seu oprimido.

A pessoa escolhida fui eu. Não poderia ser outra. Eu tava ali: preta, com o cabelo na textura mais crespa existente nesse mundo (meu tipo é 4c, existem classificações para cada tipo de cabelo, sabia?), que só usava saia (calça longa? nem pensar, era saia até 1/2 canela só e sem reclamar!).

A partir desse tal dia, o meu ano letivo foi o mais longo da minha vida. Sabe aquela historia de que os dias viraram semanas, semanas meses e assim sucessivamente? Provei o sabor disso aí.

Eu aguentei firme no inicio, sem declinar. Passado alguns dias, comecei a repugnar o ambiente escolar. Era choro pra não ir à aula todos os dias (minha mãe nunca soube o motivo dos meus choros, pra ela, eu era preguiçosa e birrenta), implorava pra minha mãe me deixar faltar, mas ela nunca deixou e fez bem, pois eu teria fracassado mais uma vez diante do problema. 

Ouvi coisas horríveis. Bruna dizia que ela e o primo me mataria e ainda descrevia como seria, segundo ela, com marteladas de pregos em minha cabeça. Descrevia outros diversos meios  de como minha morte aconteceria, mas essa foi marcante (sou grata ao tempo por ter apagado de minha memória, as outras falas dessa garota).  

Ela conseguia deixar meu coração em carne viva ardente e eu me sentia menor que um farelo de trigo (pelo menos a junção de vários farelos de trigo servia pra fazer algo, um bolo gostoso de laranja e muito mais). Mas eu era um único farelo com uma inutilidade imensurável.

Certa manhã, aconteceu a mesma coisa que nas anteriores, mas eu já estava esgotada de tudo e comecei a chorar alto, em sala (foi vergonhoso, mas eu não me contive) e a professora tomou uma posição. Perguntou o que estava acontecendo, se eu estava me sentindo mal, se havia acontecido algo com minha mãe (Deus me livre de acontecer algo com minha mãe), e eu neguei todas a possibilidades apresentadas por ela e contei o verdadeiro motivo.

Eu nunca vi alguém me abrigar (fora de casa) da forma que Raquel fez (minha professora). No mesmo momento, Raquel retirou eu e Bruna, da sala. Fomos até a sala do primo de Bruna (o tal individuo que supostamente ajudaria Bruna me fazer mal) e Raquel exigiu uma explicação pra tanta maldade psicológica à minha pessoa (se é que eu me considerava uma pessoa naquele momento).

Os dois se calaram. Raquel e eu, não tivemos respostas coerentes, menos ainda, justas. Aquele foi o marco do fim do meu sofrimento, vindo de Bruna. E assim foi o desfecho.

Eu não preciso que você, branco, sinta pena do que me aconteceu. Afinal, é só mais uma historia pra coleção do racismo, narrada por uma preta que vive se fazendo de vitima (não é?).

Ah, quase me esqueço de te dizer: Bruna também é preta! 
E número de morte preta não para de crescer. Racismo mata e deixam feridas. 

"23 mil jovens negros de 15 a 29 anos, são assassinados por ano... São 63 por dia. Um a cada 23 minutos..." (via BBC Brasil)

Não há nada de errado nisso pra você?
Sempre encontro Bruna pelas ruas do meu bairro, acredito que more no bairro de cima. Ela me olha e não diz nada, nem boa tarde. Eu também não. Ela continua linda. Talvez fosse uma garotinha problemática, não sei. Mas não esqueci e nem vou, infelizmente. 
Você faz ideia da perturbação que isso resulta? Mas, a culpa é de Bruna? Seria, se ela fosse um dos senhores de engenho.

Antes de pensar que racismo é crime (e que só por isso não fere algum preto), lembre-se: preto também tem coração, e igual ao teu (é, imagino que você reluta contra isso). Palavras são fortíssimas e quando mal usadas, são destruidoras. 

✅ #dosesvitimistas

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