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anarkhos

sábado, 16 de dezembro de 2017

trague o maço
vire a taça
trace a pele

o que te tem antes de mim
não me pertence o fim

abaixo a (o)pressão!

A arte de perder

A arte de perder não é difícil de dominar
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia.
Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe.
E olha, minha última e minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis.
E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que eu amava) eu não posso mentir.
É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode escrever!) desastre.

Elizabeth Bishop

nota de rodaPÉ

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"calculistas e frios
buscam repouso entre os meus pilares roliços
sem solicitar prévia autorização."

(cabeceira traseira exausta de acolher pés carentes, inconsequentes. diria se pudesse. nem sempre consente, quem cala.)

evite se puder

veja, não é tão miserável estar do lado de fora. fica mais fácil remover as folhas que pairam na janela. quando não convier ver o lado de dentro, é só deixar acumular.

"O tremor"

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

cercou por algum tempo e foi estreitando, como se eu fosse presa fácil ou carne barata, como quem desliza os dedos na borda do copo antes de enfiá-los dentro pra pescar a semente que ficou.

decidiu me conquistar e fez. era ousada, me via como nunca repararam - me despia sem tocar - e me falava do Cristo com tamanha convicção.

um vez enquanto elevávamos nossas preces - sendo gratas pelo trabalho, pessoas queridas e a vida -, transpirando, segurou minha mão e fez parecer que sentia medo de escorregar, como no conto de Chimamanda Ngozi, "O tremor" - do livro "No seu pescoço" - senti um tremor - talvez menos intenso que aquele que Ukamaka sentira.

o tremor, majestosamente veio desacompanhado de temor. era o próprio Cristo fertilizando um sentimento tão imaculado que nunca pensei ser digna de hospedar (?), o qual protubera até hoje numa pluralidade que não se contém. desconfio que (co)existo pra, admiradamente, dizer o quão incríveis são as mulheres; o quão incrível é ser mulher - mesmo subsistindo.