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Refúgio

domingo, 20 de agosto de 2017

(via)
- - - -
do outro lado
alimenta minh'alma das coisas que só acredito
enquanto você respirar.
desse lado
só respiro 
enquanto você respirar.
sou vida
prosa e poesia
palavra inteira ou meia
enquanto você respirar.
sou o tanto na medida certa
sou o que foi e o que virá
enquanto você respirar.
o meu refúgio é teu respiro
o tempo sopra
e por enquanto, 
me oriento
coexisto.
só enquanto você respirar.
genuinamente
daqui
é bom vê-lo feliz
do outro lado.

Eu te esperei...

sábado, 19 de agosto de 2017

(Stephanie Ribeiro - via)
- - - -
Nos primeiros dias depois que você se foi.
Sentei no balanço vermelho que você me deu.
E como eu não podia fazer mais nada.
Aprendi a te esperar até o dia que você quisesse
Voltar a me balançar.

E te esperei.

Na primeira festa da escola para você
Fiz corações de cartolina com seu nome dentro.
Ensaiei cantar aquela música do Fábio Jr.
E te esperei.
Pensei que no meio daquelas várias pessoas
Você ia surgir para me ver
Que nem acontecia nos filmes da Sessão da Tarde.
Então até o último minuto eu cantei olhando a porta
E te esperei.

No meus aniversários.
Eu te esperei.
Nas formaturas.
Eu te esperei.
No almoço de domingo.
Eu te esperei.

Quando me fizeram chorar a primeira vez no recreio.
Eu te esperei.
Quando não sabiam pentear meu cabelo que era como o seu.
Eu te esperei.
Quando o primeiro garoto me fez me sentir um nada.
Eu te esperei.

Incansavelmente te esperei. 

Guardei sua foto no fundo do meu armário.
Guardei o urso azul que você me deu.
Guardei a memória do balanço vermelho.
E te esperei.
Esperei o equilibrio.
Esperei o balançar no sentido certo.
Esperei o empurrão para chegar mais alto.

Eu esperei seu tempo.
Esperei sua mudança.
Esperei até o último momento.
Sentei no balanço e esperei o seu impulso.
Esperei.

Quando você voltou,
Disse que tinha mudado.
Que sabia o que tinha feito de errado
E prometeu nunca mais me abandonar.
Eu vi meus pés nas nuvens.
Eu senti o vento no meu corpo.
Eu esperei você.
Esperei você me dar todas as provas que por você
Eu nunca seria amada.
Esperei tanto.
Que agora sozinha eu sei me balançar.
 - - - -
Poema de Stephanie Ribeiro, "Lido na última edição do TEDX, no sábado (12/8), em São Paulo, emocionou o público ao relembrar a espera pelo pai, que abandonou a ela e a irmã Giulia quando eram crianças."
"No Brasil 5,5 milhões de crianças não tem o nome do pai no registro, e eu fui uma delas assim como minha irmã Giulia, que para mim importa muito e que pode contar comigo se precisar de um empurrão.  Durante 7 anos nosso registro só constava o nome da minha mãe, minha irmã nem sequer tinha tido contato com ele por esse tempo e após sua “retomada” as nossas vidas uma sucessão de finais de semana sentadas na sala esperando por ele que nunca chegava vivenciamos. É fortalecedor expor isso publicamente, num país que homens como meu pai são abraçados e amparados, enquanto mulheres como minha mãe são isoladas." (Stephanie Ribeiro)

"E se todos fossemos negros?"

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

(via)
"Negros podem alisar os cabelos, pintar de loiro, usar lentes de contato... porque é “interessante” parecer branco. E o processo inverso? Como funcionaria? Não há nada de degradante nisso.  Uma ferida aberta na história da humanidade que parece não cicatrizar. Um assunto tão ultrapassado e que ainda persiste, comprovando o quanto ainda somos primitivos. Sei que no paraíso não há racismo nem racistas. Isso é uma coisa mundana e suja.  Em recente viagem a um éden natural banhado pelo mar do Caribe, fiquei hospedado em um resort que recebe visitantes de todos os cantos do planeta em busca de diversão, descanso e principalmente comodidade e mordomia. Neste universo turístico, ainda há o chamado Royal Service, onde uma casta abonada de brancos é servida incansavelmente por uma equipe qualificada de negros. Negros e negras lindos, com olhos brilhantes e saudáveis, muitos deles oriundos do Haiti ou de países africanos.  A situação se torna desconfortável quando percebemos que alguns destes “brancos endinheirados” tratam os funcionários do local como se fossem robôs, ou “máquinas de servir”, chegando ao ponto de não cumprimentar os mesmos na chegada em um determinado espaço onde serão atendidos.  Em que ponto exatamente em nossa história antiga se estabeleceu que havia uma raça superior à outra? Que espinho é esse cravado em nossa sociedade que até hoje não foi arrancado? Que sentimento preconceituoso é esse, daqueles que se intitulam superiores? Quem são os portadores de tal arrogância, entre nós da raça humana?  Impressiona o fato de ainda nos confrontarmos com este câncer que mistura discriminação, indiferença e sofrimento. Acredito que a principal razão para tanta intolerância seja o medo. As pessoas em geral têm medo de seus próprios sentimentos e de tudo aquilo que é desconhecido. No momento em que colocamos alguém em uma posição “inferior” a nossa, nos sentimos valorizados e privilegiados, e isso é mais do que lamentável, é vergonhoso.  E se todos nós fossemos negros? Pensando nisso, criamos uma série de retratos de personalidades imaginando as mesmas pertencendo à raça negra. Chefes de estado, celebridades e ícones da nossa cultura fazem parte do experimento What If? – The portrait collectionA ideia partiu de Henrique Steyer ao retornar de recente visita à República Dominicana. Os retratos foram criadas em parceria com o designer Felipe Rijo, especialista em manipulação de imagem." (Henrique Steyer, disponivel aqui, acesso em 17/08/17)

Fazia uma pesquisa sobre arquitetura e design, quando encontrei no boomspdesign, o perfil de Henrique Steyer: homem branco, formado em arquitetura e urbanismo, pós-graduado em imagem publicitária e pós-graduado em design estratégico.
Algo que me instigou a querer conhecê-lo, sem dúvida, foi o trecho seguinte, presente em sua apresentação:
"Com um espírito criativo absolutamente globalizado e raízes muito bem fincadas no Brasil, Steyer aposta também em outra faceta: o desenho industrial. Suas coleções autorais saíram das pranchetas com forte acento arrojado, passeando por temas que mesclam patriotismo, erotismo, crítica social, crítica racial, política, poder, sincretismo religioso e muito mais."
Numa breve googelada logo o encontrei, consequentemente, seu projeto 'What if?' (E se?). A partir disso, infelizmente, tive mais certeza de que brancos, realmente não se importam em saber o que é racismo.

Olhos claros e cabelos lisos com fios loiros não é cultural, muito menos genética intrínseca de uma única etnia. Nunca foi "interessante" parecer branco. Todo o mundo que os privilégios estão concentrados e trancados com as 7 chaves dos padrões da supremacia branca heteronormativa. Para parecer conveniente e razoavelmente aceito em diversos meios, alguns negros se submetem a diversos procedimentos.

Racismo não é assunto ultrapassado, está acontecendo agora, na frente de todos e não precisa expandir muito o horizonte para vê-lo. Essa tal ferida está longe de cicatrizar, uma vez que os microrganismos que a inflamam, continuam se multiplicando.

Como esse tal espinho poderá ser arrancado? Tenha certeza que não será com essa ideia 'E se?', de conscientização.

Quando dizem que os negros são lindos e saudáveis - somente -, só reforça a ideia de que só se interessam pela beleza seletiva e funcional que produz dinheiro para os senhores.

Brincar de  colorir não conscientiza ninguém. A negritude está se movimentando e morrendo em massa, não basta para conscientizar? Quantas outras vidas precisam ser tratadas indignamente? A luta é vã? Porque, enquanto hipotetizam os fatos, o genocídio só aumenta.

Não é sobre enegrecer os brancos - negro não é fantasia -, é sobre cobrar que os respeite com dignidade e humanismo. Que papelão (para alguém que se considera intelectual), que pecado (para alguém que acredita no paraíso), que blasfêmia, quanta ausência de respeito, quanta indiferença com a cultura negra! Black face até no Adolf, hein?
Ativismo mais legitimo que este? Impossível! "Denuncio o racismo mas continuo explorando os negros lindos e saudáveis!"

Essa surrealidade é real. What if, a branquitude começasse se importar com a negritude? What if, eles parassem de fingir não compreender que as raízes do racismo é institucional, é político-social? Nada é tão superficial quanto fingem pensar. Reproduzir falácia pobre de História e continuar no trono, reforça o conceito de que realmente não se importam.

Ao invés de What if, porque vocês não se disponibilizam para trocar - literalmente -, um dia de vida com Rafael braga, Cláudia Silva Ferreira ou Luana Barbosa? Aí ninguém quer! Racismo é lucro, não é? O sistema ganha, vocês ganham vendendo isso que chamam de arte/conscientização; e quem perde são só os negros... Covardia institucionalizada!
Observação: 1- Acesse o arquivo de Steyer para ver mais desgraças. 2- Se você, sr. Henrique Steyer, por acaso ler isso, por gentileza se posicione ainda que isto seja indefendível.